Antes da esperança

Sinto falta da alacridade vestida de verdade, do sorriso branco vindo de vários olhares, da união que calçava os pés descalços, do sentimento puro que transbordava os corações. Quiçá houvesse continuidade estes tempos áureos e hoje o ecoar da vida fosse ouvido com sinceridade. Ah! Como queria que minhas mãos carregassem as marcas do verbo metamorfosear, que em minhas entranhas eu sentisse o calor da sopa, o caldo da transformação, onde seria espelhado cada risco e cor das minhas asas. “A esperança é a última que morre”, dizem eles. Que este pó se finde muito antes da esperança, porque depois disso virá a aurora que reluzirá meu céu interno. Ah! Como desejo a vida, e porque minha sombra estagnou junto ao relógio do tempo? É como se a areia da ampulheta tivesse ficado parada no ar e seus grãos não tocassem o chão. A estranheza de ter nas mãos um tesouro perene, e ser sufocado pelo baú que o guarda, lugar de um estado sem luz, trancado em si mesmo. A fraqueza parece ser forte, e então sempre é derribada, rola ribanceira abaixo, ficando por baixo. O império do orgulho tolo querendo trazer discórdia lá dentro, olho lá fora e o que vejo é descontentamento. É a dor perda, a perda dos sentidos, um peito ferido, vários corações partidos, e ainda buscando sentido. Não há o que ser feito, mas é necessário mudar o ensejo, antes do próprio fúnebre cortejo para que quem sabe possa ainda permanecer o respeito.

 

Por Patrícia Campos

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