Lavei as minhas mãos XIV

Concedeu a vida para os braços da morte, como se suas correntes pudessem prende-la, lavou as mãos para expurgar a culpa, como se pudesse lavar suas escolhas. Martelo ditou o destino, ruiu o chão com a corda no pescoço, faltou-lhe ar para revogar seu mandamento, e quando viu a morte abraçou a si e a vida voltou a sua fonte. Meus pés quase resvalaram, e nos “quases” da vida que esquecemos quem somos, a pequenez de sua imaginação insiste em alcançar grandeza, entretanto enlaçada ao pó torna-se miudeza, até onde vai sua pureza? Quem pula do precipício já espera a dor da queda, como ouvir o cão e já sentir o peso do metal, fechou os olhos esperando que desapareça, tocou o mar e deixou secar, é certo que lavou as mãos, mas do que adianta se não tem asas para voar? Suas mãos desenharam a escuridão, como espera que fique seu quadro? A arte é a voz do pintor, o que contam seus rabiscos? Os “ses” sobrepuseram a realidade, é melhor do que a dor, entregou às trevas a luz, e esperava que no dia seguinte o sol pudesse acariciar sua tez. Sonhar não é proibido, mas o sonho já morto é irreal, e pior se faz aquele que suas próprias ações o fizeram impossível. Lavaram as mãos, mas não chegou ao coração, este foi o erro da humanidade, apartaram-se da escolha, mas viveram na maldição, um ciclo vicioso de morte, atos inconsequentes, não há como viver em paz quando o turbilhão está na mente. O sal escorreu das nuvens, a tradição matou o Filho, não percebem que ele ainda vive e continuam o empurrando do precipício, já lavou suas mãos hoje?

 

Por Luiza Campos

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