Número zero

Não havia nada palpável, muito menos admirável, não havia voz, canto, riso ou choro, não havia laço, raiz, traço ou coro, não havia um ombro, um colo, um sopro, não havia nada além de sentimentos loucos. Na verdade, eu não imagino como seja, onde está, por onde anda, não sei o bairro, a rua ou a casa, não sei como se sente, como se vê, algo ou nada, sei muito menos que você, que lê, que não busca saber, que não se importa, sei menos ainda o porquê, um caminho raso, triste e sem volta. Não é cômico, porque é trágico, algo um tanto quanto amargo, não há suspiro, tilintar das águas, e o soar da chuva, não há nem mesmo a tristeza que já se despediu, os laços tão amados se desfizeram como um vestido velho, e tudo o que era claro tornou-se pó mais uma vez. Este canto já soou por entre a floresta, se repete como tempestade no oceano, a vida não basta para calar, por isso os céus escureceram, e desistiram de dar sentido a algo que já havia se perdido. Andando eu pelos vales encobertos vi muitas coisas das quais não queria, dores e angústias não sentidas, mas por um lado, compreendidas, andando mais um trecho consegui ver a lua, brilhava como se a luz fosse dela, e encantava como se fosse durar para sempre, e assim forma-se mais uma tragédia, a confusão esculpida nos corações, que constroem seus abrigos em areia movediça, e são engolidos por suas próprias ilusões. Eu não saberia descrever com exatidão, muito menos perto de estar real, mas sei que a angústia deve ser algo colossal, se houvesse palavra com um peso maior usaria, mas no momento, desconheço. Eu não queria passar tristeza, longe de mim querer levar dores para corações pacifistas, mas a realidade bate em minha porta, e a dor que sinto transborda, não houve muitas pessoas que vi perderem a cor, na verdade, que vi mesmo foram duas, e as mesmas perderam tudo, não só a cor, mas o pudor, a chance, a esperança, vi perderem o chão, a vida, a temperança. Assim tornaram-se como uma velha canção, uma música na qual as notas abraçam o coração das crianças, mas para mim, infelizmente, traz um ar de instabilidade, pois não, não era uma casa muito engraçada, mas sim estranha e sem destino, e realmente não tinha teto, não tinha nada, não havia nada além de si, e por mais que tentou alcançar esmero, foi levada pelo sopro da vida, agora, quem encontra esta casa na rua dos bobos e seu número zero?

 

Por Luiza Campos

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