Sopro da vida

As folhas foram pulando estações sem eu perceber, passou muito tempo após a minha largada, estou sem tempo e sem chance de chegar no altar, minha soberba me segurou para correr após a largada, gastei meu tempo sendo vaidoso, exagerei em todos os meus bens, em meu rosto, tenho marca da sobrancelha franzida, tive todos os gozos possíveis com pessoas diferentes, consegui tomar tudo dos outros, pois ficava melhor em mim, mostrei todas minhas riquezas que juntei, não deixei ninguém tocar em meus bens. Conquistei tudo que podia neste mundo, não olhei para frente, não quis enxergar o abismo, o tempo passou e eu nem percebi, foi um sopro, mesmo sabendo de todo ouro dentro do meu vaso de barro, eu não me contentei, quis tudo que podia tocar, e perdi minha única oportunidade, deixei de canto minha vida eterna e me contentei com uma mixaria de tempo com prazeres mínimos, passou o tempo e eu não tenho mais tempo, estou tremendo, pois sei que minha ampulheta dos infernos começará sua contagem, uma ampulheta sem fim, com areia infinita, não tem arrependimento para me salvar, para salvar ninguém, joguei minha vida no lixo, amassei ela e arremessei no lixo fazendo gracinha, não há como desdobrar a vida igual um papel e torna-la útil novamente, vejo as gotas de soro pingando ao lado da minha cama, ninguém do meu lado, estou sozinho, estou exausto, minha vista está embaçando, minha pulsação está aumentando, meu pulmão está sem ar, não consigo respirar, estou tendo uma convulsão, quero segurar alguma mão, estou sozinho, puxo a fronha da cama querendo agarrar em algo, quanta dor; acabou, passou, estou mais sozinho agora do que nunca estive, não sei como descrever esse sentimento, sei que a ampulheta corre como um ciclo sem fim, não a escuto, não a vejo, não a sinto, não há cheiro, alguém por aqui? Me perdi, o tempo foi mais rápido do que minha vista pudesse acompanhar, um sopro, um piscar, deixei de última hora, foi muito tarde, sou uma mulher que não gerou um filho, sou uma flor que não se abriu com os raios de sol, um pé de fruta que não produziu nada, esse é meu fim, uma simples vida que se torna normal.

 

Por Luiz Gustavo

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