Último grão

Quando cairá o último grão de sua ampulheta? O último suspiro, o último riso, o último abraço, o último adeus? Seus arrependimentos se apresentariam todos de uma vez, e como voltar para consertar algo que se quebrou para sempre? Muitos dizem que não há como viver sem falhas, que sem elas não seríamos quem somos, mas são elas que condenam, a mancha do pecado, um conto vazio, e quando tudo ruir qual seria a moral? Fábula de um pássaro sem asas, uma lagarta que não quis metamorfosear, lágrimas que só doavam as tristezas, um poço raso, um oceano coberto de escuridão. Quando será o último grão? Pergunto-me em vão, ninguém sabe o momento do fim, mas podemos saber o fim, são rastros já deixados em nosso coração, histórias já contadas, mesmo que desconhecidas de forma clara. Todos já tiveram um momento de euforia, aquele que para o nada tudo entregaria, não importaria o que fosse, aquela rebelião que advém da liberdade, aquele sentimento familiar de que não somos limitados e que esta não é nossa parte, aquele momento que muitos dizem ser loucura, ninguém teria coragem de dar ouvidos a suas próprias fantasias, como deixar os nós que me sufocam tão facilmente? Fantasia, é utopia deixar tudo o que construí para trás, o que seria sem meu império? E em tantas questões e dúvidas mais uma gota pingou em minha tez pálida, quanto tempo o tempo me deu? Quando será o último grão? Chove como águas da cascata, mas a diferença é clara, enquanto cachoeira me banha, estes grãos me sufocam, uma história quase bela, quase certa, quase minha, mas perdi-me nas linhas de minha arte e deixei a morte cruzar a tela.

 

Por Luiza Campos

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