Mazelas da alma

As mazelas da alma não fazem barulho, mas elas se instalam em silêncio, nos cantos mais profundos do nosso ser, onde ninguém vê, mas onde tudo é sentido, e vem à tona pelos sentimentos que alimentamos. São feridas que o tempo não explica, dores que não se mostram, e por vezes nem cicatrizam, mas que pesam a nossa alma e roubam a leveza que outrora carregava. Às vezes nascem de palavras não ditas, de gestos que faltaram ou de momentos que marcaram mais do que deveriam a nossa trajetória, e com isto o peso toma conta de uma forma que não tem explicação. O choro é incontável, a culpa sempre bate na porta, e a todo momento você tem que estar lutando contra as forças que atuam para que elas não te engulam de vez e a porta dos céus se feche. É triste olhar os semblantes vazios e perdidos, pois não sabem onde se encontrar, a dor fala mais alto, e a paz fica longe, alojada num canto do peito. O bem-te-vi já não canta mais como antes, sua melodia não chama mais atenção, as lembranças ficaram na estante, e suas cordas não trazem mais afinação. O caminho com todo o seu ensejo, e o coração não soube se atentar, deixou as dores falarem mais alto, e perdeu aquele brilho no olhar. O sofrimento só continua quando se dá mais vazão a ele, quando não se cura, vive aprisionado em suas correntes. Quando nos propomos a nos reconhecer, mergulhamos no mais profundo do nosso interno, para vermos o que originou todos estes males que se encontram escondidos em cada parte do nosso ser. Por isso devemos perscrutar a nós mesmos e de modo algum nos acomodar, porque aí que mora o perigo eminente, que faz acharmos estarmos aonde ainda não nos encontramos de fato.

 

Por Ítalo Reis