Cuidar de mim

Aquietei-me no silêncio para ouvir meus próprios passos. Eles corriam contra o tempo e comprimiam-me em meu espaço — um lugar talvez pequeno por minha própria limitação, embora infinito dentro do meu coração. Equivoquei-me ao julgar que minha liberdade se misturava à libertinagem; descuidei-me e me perdi de mim. Fui para tão longe que já não conseguia me enxergar. Não me procurei, mesmo quando se fez noite; deixei-me por aí, só. Acostumei-me com a minha ausência, esqueci quem eu era e já nem queria saber a que vim.

As pernas dos ponteiros não finalizam a corrida; não havia hora de chegada, muito menos de partida. O mundo girava e eu parecia estar ao meio. E estava: meio confusa, meio triste, meio avulsa neste “rolê”. Em meio ao caos, buscava um cais, mas tudo o que encontrava era o mar dos meus “ais”. Fui eu quem se descuidou, quem se deixou ir por aí, sem rumo e sem prumo.

Quiçá meu anzol invisível pudesse me trazer de volta. A isca é o desejo de me encontrar. Fui me buscar e me senti como uma pipa que voava alto; não era liberdade, era a displicência que descarrega a linha. A falta de concentração deixava-me sem direção.

De repente, um estalo, um disparo: era o tom do meu coração me dizendo que preciso cuidar de mim. Não há quem faça isso por mim, senão eu mesma. Percebi que o tempo aqui é finito, ele chega ao fim. Não posso mais me abandonar. Devo me cuidar e guardar minha alma; ela é valiosa. Preciso apenas protegê-la dos gigantes que me rodeiam, pois eles não são mais fortes que meu desejo de vencer.

 

Patrícia Campos

Tema: Kátia