Eu não me lembro de nada, mas era uma coisa muito ruim em que tínhamos de voltar sempre ao mesmo lugar, algo entediante, como ter de começar tudo de novo. Não via a hora de acordar e sair daquele tédio maldito, onde tudo me irritava, sobrecarregava a alma de enfado como um espinho na carne.
O sonho se foi, mas ficou impregnado no subconsciente como um trauma de infância — algo que eu nunca queria ter vivido. Não sei o que Deus quis me dizer com isto, mas foi muito ruim, talvez até esta própria vida na carne, que me parece entediante e não me sai da cabeça. Todo dia parece a mesma coisa: as mesmas pessoas, as mesmas preocupações, o sol nasce e se põe no mesmo lugar, um sonho interminável.
Desde que me conheço por gente sempre trabalhei, pagando contas que nunca terminam; parece que já nasci devendo. Você tem que ser assim, tem de ser como todo mundo — exemplos sem fim.
Escorregou numa atitude, já era; nunca mais volta a ser o mesmo. Manchou a alma, nunca mais limpa; pode ter mil atitudes corretas, mas errou uma vez já não é digno de confiança. Um mundo onde tudo se paga, nada é de graça — nem amizade, nem irmandade, principalmente trabalho.
Fala-se muito em amor, empatia, filosofia, ética, deveres, mas vejo só hipocrisia, interesse próprio, engano e falsidade. Não vejo a hora de acordar e esquecer esta vida, nunca mais lembrar que passei por este alambique de coisas podres, frutos estragados.
Sair ileso é difícil; tudo que se toca parece imundo, quem conversa já está contaminado, não se vê consciência pura. Desde criança ela já é ensinada pelos pais a ser melhor que as outras — melhor em casa, na escola, na rua, melhor em tudo. O próprio esporte, que parece uma coisa boa, ensina a derrubar o outro, ser campeão em cima da derrota alheia. Quem derruba é ovacionado; o perdedor vira derrotado e ninguém faz caso.
Na teoria somos iguais, mas na prática um quer ser mais igual que o outro. Diante de Deus dizem que somos iguais, mas na vivência uns se acham mais privilegiados. Minhas vistas estão cansadas de tanta maldade, meus ouvidos calejados de conversas moles do diabo, gente que joga verde para colher maduro. Não caio mais no interesse de quem quer usar ingenuidade para dar golpes. Fazer bem ao próximo é uma coisa; aproveitar-se dele é outra. Pedir por necessidade não é feio, mas usar da bondade alheia é sacanagem. Não tenho mais disposição para a hipocrisia: você se doa e a pessoa aproveita, seu coração puro contra intenção ruim. Se a consciência não se desligar desse mundo e se ligar ao espírito de Deus, vai junto com a leva; o melhor é estar só, desligado de tudo e de todos.
Por O teu espírito diz


