Ao repousar, despretensiosamente,
descansou suas pálpebras
sem ao menos imaginar o que pudesse lhe acontecer.
Talvez buscasse respostas
em lugares onde não havia palavras.
Mas, ao entregar-se por amor de si mesma,
o orvalho da noite veio lhe visitar:
águas em formato oculto,
entrelinhas desenhando-se em linhas
repletas de retratos de sabedoria.
Enigmas que só são desvendados
pelas almas que buscam abrigo no céu.
A noite fala de forma anônima,
mas aquele que busca respostas
atenta-se aos pequenos detalhes.
Então, ao fechar as pálpebras,
a visão já não era mais turva,
e nem se fazia curva:
traçava-se em si a reta,
o espaço mais curto entre os pontos alma e espírito.
A analogia é o pontilhado que,
quando traçado e compreendido,
torna-se a resposta daquilo que foi pedido
e, então, concedido ao peito que não se acomoda,
nem quer se sentir perdido;
antes, busca de forma sólida suas passadas
por este lugar efêmero,
porque é através dele que se encontra o lugar eterno.
As palavras são águas em forma de letras,
que se encaixam e dão sentido
para quem quer entendê-las.
Uma compreensão ampla, além da hermenêutica,
algo sentido no imo,
a ponto de transcender o próprio sentido.
Quando a alma repousa,
o orvalho da noite cai sobre ela.
E ela se deixa umedecer pelas águas que descem do céu,
perfurando-a como espadas,
cravando-a como uma bandeira branca
que traz consigo a paz e o acolhimento
que o entendimento permite a quem quer compreender.
Que toda água designada a cada um de nós
seja recebida por nossas almas de portas abertas.
E que, mesmo quando essas águas
não trouxerem a doçura que desejamos,
saibamos que tudo é para o bem de Deus.
Patrícia Campos


