Alcançar a vida

O que seria alcançar a vida?

Muitos julgam possuí-la pelo simples fato de respirar. Mas o pulsar das veias não é, de fato, a vida. Viver, muitos vivem: a relva que brota, o animal que corre, a selva que ruge. Há um oceano de seres viventes, mas quem, de fato, alcança a vida? Enganam-se aqueles que julgam tê-la, a vida é algo a ser conquistado, um desejo profundo, um caminho que exige o cansaço dos pés e a entrega da alma.

Todos nascem, florescem e fenecem. Mas, ao findar da jornada, quem poderá dizer que foi dono da própria vida? Ela se oferece como luz a todos, mas poucos se deixam iluminar por ela. Valorizam o ruído do cotidiano, o conforto das repetições e o brilho fugaz de sentimentos que o vento leva, tesouros de areia que o tempo, soberano, se encarregará de derrubar. Apenas nós, seres humanos, somos capazes de produzirmos algo extraordinário: a morada onde a vida reside, a consciência. Todavia, caminhamos cegos para a nossa própria obra. Imaginamos que nossas mãos moldam apenas o que é externo, sem notar que o nosso verdadeiro dever é tecer a nossa consciência.

É a consciência que valoriza o existir; é por ela que a vida se deixa tocar. Ela é a porta do céu, o portal invisível por onde atravessamos para a eternidade de mãos dadas com a vida. Só alcançamos a vida quando no solo da consciência, plantamos a semente da eternidade, para que possamos florescer perenes, assim como Deus é.

A vida é própria do espírito santo de Deus que nos habita. Só alcança a vida quem a ele se conecta. No entanto, o mundo segue em sua corrida frenética atrás de sombras, perseguindo o que murcha e se desfaz, inclusive a própria carne.

Como podem dizer que amam a vida, se correm desenfreadamente atrás do que é efêmero? Confundem o relance do tempo com a imensidão da vida. Mas a vida é eterna; ela não conhece o silêncio da morte. Para alcançá-la, é preciso soltar as amarras do que morre e fechar os olhos para o que é visível, permitindo que a alma enxergue o que os olhos mortais jamais poderão alcançar.

 

Patrícia Campos