Sorri, para o espelho, sorri, para mim mesmo, enquanto meus olhos ardiam, minha garganta apertava, minhas mãos tremiam e minha voz embargava, sorri para trazer alegria, mas trouxe apenas os cacos que me compunham, tentando colar um vidro quebrado, uma história aos pedaços, faz de contas que está tudo bem, em algum momento isto se assenta, se aceita, e se torna verdade, quem sabe? A verdade é que a mentira é fácil de contar, mas difícil de conviver, espinho costurado nas roupas, adaga na garganta, um lembrete, uma mentira, o faz de contas é sua ruína, uma ilusão falha, um conto frio. Sorri com a mira na cabeça e a espada no coração, os olhos marejados e a face estóica, mas o interno se desfazendo, derretendo. Perdi-me de mim, de minhas mãos, perdi-me nos escombros do coração, as histórias ficaram como lembranças, mesmo que construídas em falsas esperanças, soletradas por vozes vazias e interpretadas por personagens sem vida. Faz de conta que entende, que acredita, que sente, e no fim as mãos frias, o olhar perdido e a voz fraca, rasa, sendo esmagada pelo medo que assombra, não lhe deixa enxergar quem é, o que quer e onde está, apenas sabe que vive em algum lugar de si, e em algum momento nem mesmo viverá. Normalmente os contos e fábulas tem finais felizes, mas o que escolheu caminha para um fim dramático, cheio de reviravoltas e dores constantes, um faz de conta que começou simplório, mas depois de tanto se enganar, tornou-se impróprio, mórbido, o que era para trazer afago, trouxe mágoas, o que era para trazer paz, trouxe a confusão, uma escrita mal feita e um mocinho que se tornou vilão. No fim, sua fantasia não era tão fantasiosa assim, e as maquiagens se desfizeram, os figurinos rasgaram e os sorrisos cessaram, por muito ter enganado, quando tudo acabou, percebeu que só enganou a si mesmo e a mais ninguém.
Por Luiza
Tema Jeane


