O desconhecido

O desconhecido é a parte mais bela que pode alojar-se dentro de mim, de ti e de todos os seres viventes. O desconhecido é esse espírito que habita dentro de nós; ele é quem nos dá a vida, mas ninguém faz caso dele por não conhecê-lo; vão atrás de todas as coisas deste mundo e, por não terem consciência do espírito, não se dão conta de que, sem ele, nada fariam e nada seriam.

Aqui estou hoje por causa dessa vida que brilha dentro deste vaso de barro, o tesouro escondido que reluz minhas novas vestes, que dá forças à minha armadura de ouro, que ilumina a espada que carrego firme no punho, que anima o meu coração a cada dia no caminho que escolhi para andar junto com o Senhor que um dia foi desconhecido, pois não o conhecia, e por isso brincava com a senhora morte todos os dias. Passeava com os amigos à beira do precipício; escalávamos penhascos sem ter noção do perigo, íamos longe sem medir o tempo e brincávamos como se não houvesse amanhã.

Me acidentei muito nas noites escuras, me feri demais por dar passos bem largos com os olhos vendados; me arrebentei tanto na amargura dessa vida que tanto me ludibriou. Me perdi por uns tempos; nem sequer me conhecia, era órfã, desprezada, e até os mendigos viviam melhor que eu. Eu não fazia dimensão do desconhecido em mim, não sabia que estava entre a vida e a morte, do além do céu ao além do inferno. O túnel se fez conhecido e a luz no meio dele se acendeu.

Não sou mais uma biblioteca vazia; agora tenho conteúdo da vida. Não sou mais criança perdida, mas sou uma moça do Senhor, que agora está na presença do Eu Sou. Aquele que um dia foi desconhecido em mim me foi apresentado e enxerguei toda sua beleza e formosura; e tudo aquilo que em mim eram trevas se tornou luz. A verdadeira luz raiou, resplandeceu, iluminou todo o meu ser. Agora eu vivo na luz que me nasceu, na luz do meu Senhor, e por ela serei iluminada por toda a eternidade.

 

Por Lucinha