Escuta o meu sussurro, tu que me julgas com o peso da verdade. Sim, eu me perdi naquele mar, mas não foi por falta de norte; foi por excesso de tempestade. Tu falaste do poço como quem olha de fora, mas esqueceste que as paredes eram feitas de espelhos que só me devolviam o que eu mais temia ser.
Dizes que me vendi por pouco, mas quem conta os centavos da fome de afeto? Eu troquei a eternidade por instantes, pois o silêncio da noite me gritava nomes que nunca ouviste. Fui cinderela de pés descalços sobre cacos de vidro, querendo acreditar que o vento que levava as histórias traria, enfim, um fundamento.
Não me chames de covarde sem conhecer o tamanho dos gigantes que me habitam. Se não derrubei os teus, foi porque estava ocupada tentando manter o teto da minha sanidade sobre a cabeça. Eu sou o golpe que dei em mim mesma, mas também sou a ferida que ainda insiste em sangrar.
Contudo, eu sou a porta que pode me remediar e trazer a esperança a qual nunca desisti de ter.
Patrícia Campos



