Os dias iguais não trazem esperança;
a mesmice predomina e o cansaço aumenta.
Não falo do cansaço físico, esse já opera no automático,
mas das dores que os olhares entregam,
mesmo quando guardadas no silêncio, são dores que a alma carrega.
Janelas que se expressam no olhar cabisbaixo,
longínquo, distante de si mesmo.
Vez em quando, um sopro questiona a mente:
Para que tudo isto?
Nada disso importa, senão o campo e a porta:
a consciência e sua abertura para a vida.
Os anos passam, sem trégua, e para onde estamos indo?
A humanidade adoeceu.
Os remédios já não curam, apenas adormecem o pranto.
É um mal interno, sem prognóstico,
que nenhum médico consegue decifrar,
pois nem eles compreendem as próprias feridas.
Mas, pensando friamente, há um caminho a trilhar.
Somente quem caminha por ele
arranca o peso do peito
e se torna reticências em outro plano, em outro lugar.
Tudo o que os olhos mortais contemplam é efêmero
e não nos acompanhará na partida.
A sabedoria, então, sussurra:
Lança mão do arado e não olhes para trás.
O campo da consciência é vasto.
Por ele, encontramos a paz que já habita em nós,
no âmago do coração.
Quem não se deixa tornar obsoleto, encontra sua razão.
Não estamos aqui por acaso.
Somos a terceira relevância nesta imensa expansão:
primeiro, o Dono do Verbo;
na sequência, a Sua semente;
e, então, o nosso coração — a consciência produzida pela criação.
Por ela atravessamos planos e trocamos de existência.
Por ela raciocinamos, até esbarrar na compreensão
de que nada somos sem o Autor da Vida.
Não há erro de interpretação, cena mal resolvida ou falha na atuação.
Trata-se de vivência, de uma transmutação do ser:
derrubar o efêmero que há em nós
e erguer a semente perene antes do entardecer.
Um dia, a noite tomará a alma.
Se ela não estiver sóbria, com o óleo em sua candeia,
nada disso importará se a luz não permear sua eira.
Pois nada é mais sagrado à consciência que o espírito que nos sopra a vida:
Ele é o nosso corpo eterno,
a existência eterna que toda alma necessita.
Patrícia Campos


