Reabilitar o Coração

Pode-se restaurar o que se perdeu?

Talvez, se juntarmos os cacos e colarmos o que sobrou,

tentando fechar, com zelo, a lacuna que se formou.

A questão é que, por vezes, não conseguimos abandonar o lugar da culpa.

Não que devamos esquecê-la — é preciso ter o coração contrito pelo mal que nos causamos —

mas permanecer sob o peso, estática, não aciona a engrenagem necessária para o movimento.

Que o peso permaneça apenas como lembrete;

um despertador que, ao tocar, mostra o que precisa ser feito

para que não repitamos a falha cometida.

A partir daí, é preciso posicionar os pés e caminhar em linha reta,

sem desvios do caminho da justiça.

O coração, uma vez ferido, sempre guardará sua marca.

Isso não significa que ele não tenha se regenerado,

mas que a cicatriz resignifica o dano:

um dia houve ferida, causada por ninguém além de mim mesma,

ao depositar expectativas onde não deveria.

É preciso agir por si, sem nada esperar de outrem.

Reabilitar o coração é curar-se das dores,

livrar-se dos fardos, arrancar rancores e desprezar o desprezo.

É remediar-se sozinha, buscando a cura em si,

reencontrando o caminho que nunca saiu de mim.

Fui eu quem saí por aí, ferindo-me em ansiedades,

em experiências peculiares, fora da razão da vida.

Quando me dei conta, entendi: a cura era voltar para casa.

Compreender a mim mesma, notar que meus pés se distanciaram da vida.

A compreensão traz a esperança da restauração,

um polimento na alma, uma nova visão, uma nova situação.

Tudo depende de mim, tudo está em minhas mãos:

a minha cura, a minha reintegração.

Quanto mais perto de mim eu estiver,

mais darei a atenção necessária à minha transformação.

As palavras são lindas, a esperança é renovadora,

mas de nada adianta o verbo explícito se a alma não for acolhedora.

E não falo do lado de fora — esse lugar só me fere.

Falo de dentro da minha casa: acolher minha própria alma é o que me difere.

Sou eu quem devo me acolher,

cuidar das chagas que me causei,

restabelecer as leis que me erguem e restaurar minha reputação,

perdida em caminhos vazios.

Não irei me abandonar, mesmo que os dias sejam frios.

Minha alma hei de edificar; se eu não o fizer, ninguém o fará.

O externo tenta me afogar, mas meu interno há de prevalecer na claridade,

até que eu possa, de fato, me encontrar

no caminho que me trará a liberdade.

 

Patrícia Campos 🌺

Tema Lucinha